quarta-feira, 9 de junho de 2010

Crash (1996), de David Cronenberg

Sou da opinião de que o bom crítico é aquele que avalia quantitativamente o seu objecto de uma forma totalmente imparcial, desprezando a experiência subjectiva (dentro do que é possível) e regendo-se apenas por um olhar objectivo; mas que uma boa crítica não se pode limitar aos números, sendo estes inúteis a partir da sua óbvia utilidade. Uma boa crítica deve conter um auxiliar textual onde o crítico possa explicar a avaliação numérica, contar algo de novo aos seus leitores, fazer recomendações e, acima de tudo, falar da sua experiência subjectiva tão abertamente ao ponto de esta deixar de comprometer o seu juízo crítico.
Apenas guiando-me por estas regras algo desregradas posso falar de filmes que violentam os sentidos e chocam o espírito, não deixando de, no entanto, regalar o olho e o intelecto fascinado. Eis "Crash".


Baseado no romance homónimo de 1973 de J.G.Ballard e realizado em 1996 pelo canadiano David Cronenberg, um dos maiores nomes da Horror-Sci-fi da história do cinema, criador de chocantes thrillers como Stereo(69), Scanners(80), The Fly (86), Dead Ringers (88), M.Butterfly(93) e mais recentemente eXistenZ (99), Spider (02) e A History of Violence (05), Crash, não menos gore que o resto dos seus filmes (nem que seja um gore psicológico), conta-nos a história de um grupo de indivíduos que apenas consegue obter prazer sexual ao observar ou experimentar acidentes de automóvel.

Protagonizado por James Spader (o hilariante Alan Shore da série Boston Legal) e secundado por Holy Hunter, Elias Koteas, Deborah Kara Unger e Rosanna Arquette, este filme, muito pobre no que diz respeito ao enredo, podia ser traduzido em pornografia para parafílicos, neste caso, para pessoas com os mesmos desvios sexuais que aqueles que nele entram. Mas será que Cronenberg quer saber do enredo para alguma coisa? Não.
Aquilo que o realizador tenta fazer não é contar uma história interessante sobre pessoas com esta ou aquela demência. É fazer-nos sentir aquela obsessão e guiar-nos por um mundo totalmente novo. Um mundo possível ainda que inverosímil em que o Eros e o Tanatos freudianos se misturam e atingem um cúmulo aparentemente irreal para o homem são; para o homem comum; normal.
A mestria técnica do realizador, a possante e hipnótica banda sonora e a entrega total dos actores nesta obra de arte do submundo criam no espectador uma sensação de desconforto constante a par duma curiosidade pungente. Não sabemos como reagir perante um erotismo tão familiar ao mesmo tempo que distante, chocante e até mesmo devasso. Cronenberg cria em nós uma mescla de sensações que insere este filme exactamente na classe daqueles a que me referia na introdução deste post. Filmes que embora não possamos realmente "gostar", podemos e devemos sempre admirar.
Crash é um brilhante estudo socio-psicológico que apenas peca pelo excessivo arrastamento de algumas cenas e repetição de outras. Chega a uma altura em que o nosso desconforto não se deve apenas ao conteúdo do filme mas também ao fastidio provocado pelo mau enredo.

Vaughan (Elias Koteas): "The car crash is a fertilizing rather than a destructive event."

Nota Final: 4/5

Q

1 comentário:

Nádia C. disse...

Eu fui a única que não sentiu desconforto com esse filme? Se fosse um filme fofinho as pessoas não sentiriam desconforto? Acho que não sou 'doida' por não me senti 'estranha' assistindo Crash.

 
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